Aquele fim-de-semana em que queríamos ir dormir com as cabras…Parte 1

1.

– Nem penses! Disseste que era apenas uma vez por ano, em que ias dormir fora de casa, com os teus amigos das bicicletas! O que é que vem a ser isto! É um fim-de-semana agora, é os Picos da Europa em Julho! Não querias mais nada, não! Eu assim também vou viajar! Pego nas minhas coisas e vou! E ficas a tomar conta dos filhos e a fazer os almoços e jantares! Grandes vidas, né! E que raio de história é essa de ir dormir com as cabras? Queres cabras para quê? Precisas disso, ham? Falta-te alguma coisa, é? Hum?! Eu que saiba, vais ver! Eu que saiba! Está ali o rolo da massa ainda por estrear! Levas tantas, que nem com o capacete te safas! E corto-te as bicicletas todas às postas! Todas! Tudo às postas fininhas! E frito tudo com arroz de tomate, vais ver!!

 

Tacteando no escuro, encontro o telemóvel.

3:42 da manhã.

Pouso-o de novo, sobre a mesa de cabeceira e sento-me na cama, procurando desprender-me da Querida Esposa, que dorme profundamente. O suor escorre-me por todo o corpo e apercebo-me que o meu lado da cama está alagado.

Mais uma noite igual. Pesadelos constantes e horríveis. 3 noites seguidas sem dormir depois de dias inteiros preocupados com Questões realmente importantes. Questões com Q grande. tipo de vida ou de morte.

Questões que podem decidir o destino de uma vida:

– Qual a melhor estratégia de abordagem da Querida Esposa de modo a aflorar acerca da possibilidade de sondar se ela veria algum inconveniente em que o seu Querido Esposo pudesse por acaso pôr sequer a hipótese de, numa possibilidade remota, ir apenas dar uma pequena voltinha de bicicleta? Isto claro se não a incomodasse muito, se não causasse muito transtorno. Seria apenas para acompanhar os seus amigos, que fazem toda a questão em que ele seja o cicerone e que até demonstram todo o gosto em irem com ele, que ele é mesmo imprescindível para os objectivos intrínsecos da voltinha, pedindo desde já muitas desculpas pelo incómodo e agradecendo desde já o obséquio e a atenciosidade?

– Eu vos digo! Venham cá com coisas que eu vos digo! Leva ele e levam vocês! E as cabras! Raispartàsbicicletasdumraio! Corto-as todas as postas e frito tudo! E obrigo-vos a comer tudo, às secas! Sem arroz nem nada!!!

…não, assim também não! Tenho de pensar noutra maneira…talvez hipnose. Ou simular um rapto…

 

2.

Se querem mesmo saber como a Querida Esposa acedeu a dar o visto para o fim-de-semana, o NIB é 0041 0023 567456 3. mínimo 35€

O certo é que que no dia 2 de Junho, às 9:30 da manhã, 4 intrépidos ciclistas tomam o seu pequeno-almoço num qualquer café Albicastrense, preparando-se para o início de mais uma aventura, e que no meio deles (aquele ali careca, de barba e bigode, magrinho,…, não, não é esse que está a comer um, o quê, um tupperware de bifes de frango e arroz???, não, esse é o Pinto. É o outro mais giro. Ah, ok, já vi. ) está o Querido Esposo, a personagem preferida dos queridos leitores (pelo menos da Querida Esposa). Também, se não estivesse lá, vocês também não estavam a ler nada, por isso, acho bem que seja a vossa personagem preferida, senão acaba-se já este blogue e vou-me deitar, ok?

Ah, bem, estava a ver…

 

4 gajos. 2 putos e 2 homens feitos.

Os putos de consciência tranquila: O Pinto tinha a Querida Noiva na Rambóia (Despedidas de solteira de amiga, disse ela! Imagino… um grupo de gajas todas soltas, com veuzinhos e balõezinhos, a entrar no Bad Boys Show, em Madrid. Olés práqui e práli, quieres más un salchichon? Si, gracias! Que guapo! Me gusta embutido! Una Tapa? Ou destapa? E o coitado do Pinto, ali sentadito, pobrezito, a acabar os bifes de perú do jantar, todos frios, sem graça nenhuma…

O Garcia, solteirão, a viver longe da sua menina (nem noiva ainda é, acho eu) imagino. Então, não vens passar o fim-de-semana comigo? Ah, não dá, estou com umas cenas para resolver no trabalho, e a mudança da casa, já sabes….Nem lhe deve ter dito que ia andar de bicicleta, nem nada! Nem um pesadelozinho, nem nada…

Quanto aos homens feitos (o narrador e o Borrego) eles trocam olhares cúmplices, não querendo puxar assuntos delicados. Bem reparam nas mãos calejadas um do outro, nas queimaduras, nas nódoas negras e nos vergões, que mal disfarçadas, sobressaem nas zonas expostas do corpo. Intimamente, partilham a dor e o sofrimento um do outro, na certeza de que o outro terá areado tantos trens de cozinha como ele, lavado, passado a ferro e engomado toda a roupa de verão e de inverno da prole, encerado e puxado o brilho ao chão do apartamento, dos espaços comuns e do passeio adjacente e preparado todos os pequenos-almoços, almoços, lanches, jantares, ceias e buchas necessários para manter a família nutrida na sua ausência.

Irmãos portanto, no sofrimento, mas também, e principalmente, na aventura!

 

3.

Atendendo a que o meu gestor de conta me acabou de informar que já entraram bastantes donativos na conta, vou descortinar um pouco da estratégia seguida, para fazer ver à Querida Esposa, a importância de dispensar o seu marido por uma noite:

 

a) Se vamos passar 5 dias nos Picos, temos de treinar antes!(ninguém, no seu juízo perfeito, se aventura numa aventura destas sem treinar, né?)

– E treinar a sério. Subir a Estrela pelo adamastor! E completamente carregados! E dormir com os sacos-cama nalgum sítio desconsolado! (tudo o que alguém pode desejar, o cúmulo da felicidade!)

 

b) – Querido Pai, tenho o desejo profundo de mostrar aos meus amigos a beleza da aldeia onde nasceste. As origens da nossa família! Seria um orgulho, não achas? – Serás capaz de falar com a minha Querida Esposa, acerca desta nobre ideia? Assim, como quem não quer a coisa?

 

c) Querida Esposa, estava a pensar em oferecer-te uma mala nova pelo nosso aniversário de casamento. O que achas? uma que faça pandam com este anel que te fui comprar agora mesmo! Gostas? É que estou a pensar que podíamos fazer uma viagem à Grécia estas férias e assim não repetias a mala, não é?

 

4.

De Castelo Branco seguimos para NO, na direcção da serra da Gardunha. Estradas completamente vazias e uma paisagem deslumbrante, à medida que nos íamos aproximando das encostas.

Sem perder tempo, e logo para começar, deixámos logo a Taberna Seca, que um gajo não anda ali para brincar.

 

E no final de uma grande subida, depois de Sarnadas de São Simão, um gajo teve que parar. Não porque estava cansado, mas até estava. Mas não foi por isso, senão já tinha parado antes. Nem tinha a pena ter saído da cama, se fosse por isso. (ok, já percebemos). Foi porque chegámos ao miradouro do Zebro. Um daqueles. Um daqueles que vês o mundo todo à tua volta. Um daqueles que dizes para ti mesmo que: ok! Já valeu a pena ter vindo, podemos voltar para casa, que a viagem já valeu a pena. Podemos morrer agora. (Não, morrer também não, porra! Também, não é caso para tanto…ainda nem almoçámos, nem nada!)

Mas um daqueles miradouros em que abres os braços e sentes a força da natureza. Sentes que não és nada perante a força daquilo que se estende aos teus olhos. Sentes o tempo que aquilo tudo tem, e que tu não és nada. Que tu vais e que aquilo fica tudo ali, na mesma, à espera que venha, um dia, o teu filho, ou o filho dele, ou o filho do filho dele, com os melhores amigos, e sinta o mesmo que tu sentes hoje!

                                                     Miradouro do Zebro, perto de Sarnadas de São Simão

 

E esse momento ficou marcado para sempre

(ou pelo menos, para bastante tempo)

O Mr Lamb esgueirou-se sorrateiramente do miradouro e aproximou-se da sua bicicleta. Discretamente, tirou um pequeno rolo de um dos sacos e colocou-o no chão, sobre o asfalto negro, onde o desenrolou. Foi novamente aos sacos e desencantou uma lata de spray. E foi então, que perante o olhar estupefacto dos outros 3 gajos, que nem sonhavam com tal coisa…foi então, que qual Zé Picasso… fez magia!

 

Devo dizer-vos que os Zés das Bikes têm uma cena muita forte entre eles. São tipo os maçons das bikes, no bom sentido. (Nada de aventais nem martelos, nã, nada disso, nada dessas mariquices. Nem depilam as pernas nem nada! Pêlo com fartura e bigidaças e tal! À Home!) Têm umas cenas secretas, que só alguns eleitos conhecem, para fazer perdurar as memórias das voltas épicas! Mas agora têm uma marca! E como os canídeos, agora vão marcando os seus territórios, não levantando a pata, mas a lata de spray do chinês! E nada de críticas,ok? Não é tagar por tagar…É só um simbolozinho discreto, de extremo bom gosto, no intuito de despertar a curiosidade ao transeunte e de sinalizar os locais merecedores de interesse.

…tipo “by appointment of Her Magesty – The Zés das Baikes”. Anderstandes?

 

5.

11:45. Aproximava-se aquela hora crítica. Começa-se a notar um pedalar nervoso e descompassado, transversal aos 4 ciclistas. De narizes ao vento, prescutam o horizonte, atormentados pela tal sensação fisiológica, pelo qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter suas atividades inerentes à vida. Nem as cerejas apanhadas ao longo do caminho acalmam a coisa…

                                                           Fome.  Larica.  Morfanço. Admoço à vista!

Vontade de sentar num estabelecimento de restauração afamado, desdobrar o guardanapo de pano sobre as pernas, (estragando todo o trabalho de quem antes perdeu horas a dobra-lo em cisne-origami) e analisar o cardápio. Dissecá-lo mesmo. Debater os prós e contras de cada um dos pratos. Conciliar a sua ordem de chegada à mesa. Ponderar exactamente que número de doses requerer, salvaguardando a doce certa de apetite para degustar o imprescindível pijaminha, no final.

Meus caros, a vida é feita de decisões. E há decisões que condicionam o futuro. O nosso e o do mundo. A nossa decisão foi seguir o conselho do senhor que nos atendeu, e não optarmos pela sopa de peixe (que segundo ele, não ia bem com as entradas e com os pratos de carne). Com muita pena nossa, que das poucas coisas que sabemos da vida, há uma que nunca esquecemos, que é:

– A melhor coisa que se leva da vida é a sopa!

Poupo-vos sempre aos chatos e aborrecidos relatos da parte das bicicletas, pois sinto que devo privilegiar as partes mais importantes da aventura. Os episódios mais marcantes e os momentos de maior suspense.

Eu seguia na roda do Borrego, que com uma elevada cadência, ia comendo queijo, folhado, bolinha de alheira, azeitona – queijo, folhado, bolinha de alheira, azeitona, sempre atento à hidratação, com o tinto da quinta do não sei quê (já não me lembro, e na foto não se vê bem o rótulo). O Pinto, seguia em fuga, com uns 15 segundos de avanço, tendo já atacado nas moelas, e já com o segundo bidon de tinto quase vazio. O Garcia, seguia no final do pelotão, guardando o bidon quase cheio, poupando para quando precisasse de atacar, aguardando apenas pela chegada das doses. A cerca de 2 kms da sobremesa, o pelotão desfez-se, principalmente quando chegou o cabrito e os maranhos. Cada um por si, os chefes de fila degladiaram-se por uma aba da costela ou por uma fatia com menos pele. Os líderes das equipas do pro-tour distribuíam os membros da sua caravanas pelos vários locais estratégicos da mesa, para encherem os bidons de tinto aos gajos, nas alturas em que sabiam que eles iriam precisar.

Depois de uma garfada de maranho era certinho, principalmente se comesse a tripa. Aquilo custa a engolir comó caraças…

A parte das sobremesas foi entusiasmante, com trocas de liderança entre quem metia a colher depois de quem. Vieram os cafés e ninguém atacava. Já com os licores na mesa, eles teimavam em não arrancar, testando os nervos de cada um. Entreolhavam-se. Mediam-se. Nervos de aço. Tudo prestes a explodir.

E foi então que alguém arrancou. Viu-se um copo no ar e de imediato todos o seguiram. Numa fracção de segundo tudo terminou e novamente os copos repousavam sobre a mesa, agora vazios.

Apenas como recurso ao fotofinish foi possível perceber quem tinha deixado aquele restinho de líquido amarelado no fundo. Seria esse a pagar a conta desta vez.

                              Restaurante “Fiado”, em Janeiro de Cima (infelizmente, não fiavam a ninguém)

 

6.

Os espanhóis dormem a sesta. Todos os dias, depois do almoço, largam o que estão a fazer e reduzem o metabolismo, proporcionando ao duodeno o ambiente zen que ele necessita para o seu correcto funcionamento.

Por isso queremos ir pedalar para os Picos. E eu insistia que, se isto era um treino, então que fizéssemos como se estivéssemos lá, que nos fossemos adaptando desde já aos bons costumbres dos nuestros hermanos.

Mas nada, diziam eles. Se a comida não desce, o ideal é uma boa subida, para a empurrar para baixo.

E ali perto havia uma. Épica. E nada melhor, para dar cabo do descanso ao duodeno!

https://aldeiasdoxisto.pt/percurso/4579

                                        Subida Épica do Porto das Vacas – 11kms com 6,3% de média

 

7.

Borroca Grande e Minas da Panasqueira.

Não, nem pensem…

Não vou fazer piadas com o nome da minas. Primeiro, porque as pessoas de lá já devem estar fartas que digam sempre a mesma coisa. Segundo, porque já deixei passar o trocadilho com o Admoço, mais atrás.

E principalmente, porque temos de ter muito respeito para com estas minas, porque o meu Avô Neves trabalhou cá muitos anos, a dar cabo da saúde, para sustentar a família. E a minha avó Pinta contou-me, há muitos anos, que vinha do Sobral, com uma cesta à cabeça, trazer o farnel para o meu avô.

Foi concerteza na minha avó que se inspiraram para fazer o trail da serra da estrela. Ela dizia sempre “Oh meu Deus, lá tenho de ir levar a merenda ao gajo outra vez!”. Eram só 5 kms, com 3 montes pelo meio (devia dar um acumulado do catano). Grandes avós!

E o meu pai trabalhou na Barroca Grande, a atender numa mercearia, mal acabou a 4a classe. A servir copos de 3 aos mineiros, enquanto o seu tio jogava à sueca com os clientes.

Portanto, foi um regresso às origens. Nunca ali tinha estado, mas por algum motivo senti que parte da minha história estava ali, naquelas escorias do volfrâmio que mancham de amarelo as encostas da serra.

 

8. Sobral de São Miguel. O centro do Universo!

Foi aqui, nesta aldeia, que há 74 anos, nasceu o meu pai. O 4º filho de 11. Ti Fernando, ti Henrique, ti Alfredo, Mê Pai (Ti Tó), ti Guiomar, ti Ilda, ti Belarmina, ti Belarmino, ti Nanda, ti Virgílio e ti Jorge. (para o meio os meus avós passaram-se com os nomes). A minha avó Pinta estava a cavar batatas e quando acabava uma leira, pousava a sachola e dizia:

– Vou só ali a casa parir e já volto!

E passado 2 horas, ia acabar de cavar as batatas (mais umas leiras), guardar as cabras e levar o farnel ao meu avô, às minas, com o filho à cabeça, em cima de uma rodilha. Vidas duras…

…como a nossa!

Eles a pensar que já tinham chegado ao fim da jornada e nem sabiam o que os esperava. A ideia era ir dormir com as cabras, e o curral ficava lá em cima. Bem lá em cima, por um caminho ideal para Bêtêtê. Eis a razão porque trocámos de sapatos e de cleats há já algum tempo…malta altamente previdente!

O curral estava pronto para o check-in! As cabras ficaram um bocado admiradas por nos verem, pois habitualmente não recebem hospedes a estas horas. Quando se aperceberam que uns gajos vindos não se sabe bem de onde, se estavam a deitar em cima da sua comida, ainda mais admiradas ficaram. Tiveram sorte do Borrego ter receio das alergias, no meio de toda aquela palha…eu cá para mim acho que se fossem ovelhas, o gajo não se teria importado com isso!

Nós também tivemos sorte: A última vez que lá tinha estado foi há bué de tempo e aquilo parecia grande. Afinal, não tinha mais de 5m2, estava cheio de palha e podiam haver lá bichos…

…pobres bichos…o jantar ia ser feijão com couves. O que poderiam os bichos fazer, assim que começassem os mais famosos gases nocivos do mundo do ciclismo amador?

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Depois de inspeccionar o hotel, decidimos reclamar a devolução do dinheiro no booking e descer até ao centro do centro do universo, para inspeccionar umas mines no ferrolho! O bar mais famoso do Sobral (acho que é o único). O Ginjas, sempre com a boina à Che, é o dono do bar e um artista, que passa as horas livres a criar mobiliário original em madeira, fazendo com que o bar pareça a casa do Frodo Baggins (ou então foi das mines, que foram algumas).

 

 

E então, chegou o momento mais esperado de toda a aventura. O jantar na casa da minha madrinha (a ti Nanda, a mãe da presidente da Junta!) e do meu ti Tó Serralheiro, o maior caçador de trutas e pescador de javalis da Beira Baixa!

Não queria dar trabalho aos meus ricos tios, que têm uma vida sempre ocupada, mas gostava de partilhar com o Pinto, o Garcia e o Borrego o que é sentar-se à mesa e comer só aquilo que é feito por nós, desde o vinho ao pão, passando pelo azeite e pelo queijo (e que queijo!), pelas couves, pelo feijão, pelas batatas e até pela carne e as chouriças, do porco que se alimentou, ou pelo peixe, acabado de pescar no rio.

Entre nós, brindámos à generosidade dos meus tios, que nos acolheram como se fossemos os seus 3 filhos, que já não vivem na aldeia, mas que voltam sempre, com saudades, para ajudar nas grandes tarefas do ano. 3 filhos que nasceram e cresceram na aldeia, e que apesar de não viverem lá, continuam apaixonados por aquela terra, empenhados em partilhar com todos a riqueza daquela ribeira e daquelas terras de xisto, em recuperar a história e as tradições, os fornos comunitários, os moinhos, as eiras, os penitentes, as filhós, as broas e as picas, e sobretudo, a generosidade dos sobralenses!

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9.

A parte que se segue é secreta! Peço-vos desde já (e isto é muito a sério) que não divulguem o que de seguida vos vou contar, principalmente com ninguém do Sobral nem da família. Os meus tios fizeram-nos prometer que não contaríamos a ninguém, o que se passou naquela noite longínqua, de 2 de junho de 2018.

– Nem pensar! Então temos aqui tantas camas e quereis ir dormir para o palheiro? Sedes malucos!

– Ó tio. Nós temos sacos-cama bons e temos de os testar agora. É esse o objectivo desta viagem. Queremos mesmo experimentar dormir em condições adversas.

– Sois mesmo chanfrados! O que dirão os vizinhos? Olha, se o teu pai sabe que te deixei dormir na rua! Nem pensar! Dormem dois aqui, que esta cama tem gavetão, um na sala, que faz sofá cama e outro no quarto.

– Oh Sr António! – Dizia o Pinto! Nós fazemos mesmo questão de dormir sem conforto. Pode ser lá fora, debaixo da placa?

– Este é o mais maluco de todos! Ó meninos, vós não sabéis o frio que aqui faz de noite! Cai a gieira e vós congelais!

 

A muito custo, lá os conseguimos convencer que não era do vinho que bebemos ao jantar, e que fazíamos mesmo questão de experimentar os sacos-cama, os lyners e os colchões insufláveis que havíamos carregado todo o dia. E após grandes negociações, lá conseguimos encontrar uma solução de compromisso: Dormíamos na oficina do meu tio, entre os perfis de alumínio com corte térmico serie CW minimal da Anicolor (carril triplo),  o torno, as sacas de lenha e a Famel verde, por entre as limalhas que davam um brilho especial ao pavimento.

20180602_215056

– Então, mas acendei a luz, caramba! Tendes alguma necessidade de andar às escuras com essas lanternas?

– É para simular os picos, Sr António….

– Sedes mesmo malucos! Mas que raio de amigos que este sobrinho me foi trazer lá de Lisboa! Rais parta! A poluição dá cabo deles…

 

Não posso dizer que foi a melhor noite da minha vida. Nem mesmo a 16.000ª melhor. Mas parece que fui o 2º a adormecer e de manhã não fui o que me queixei mais das costas. Caso queiram experimentar algo entre uma cama de faquir e uma massagem esfoliante com limalhas de alumínio, deixo-vos o e-mail do meu ti Tó, mas aviso já, que face ao elevado número de reservas, só há vagas para algumas noites de 2021.

tantascamascáemcimaeosgajosnochãodaoficina@raispartaosgajos.com

 

https://www.strava.com/activities/1613506551

https://aldeiasdoxisto.pt/aldeia/sobral-de-sao-miguel

https://www.facebook.com/Freguesia-de-Sobral-de-S-Miguel-636403043082520/

 

 

 

 

 

 

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